Pois bem, a boa notícia é que a ciência conseguiu, finalmente, desconstruir essa narrativa: o que muitas mulheres têm não é um superpoder, é carga mental.
Sem intenção de se fazer uma mega queixa coletiva, importa celebrar o facto de, pela primeira vez, este fenómeno ser abordado de forma construtiva nos meios de comunicação e nas redes sociais como parte da estratégia de gestão do stress. O cérebro – graças à neuroplasticidade – aprende rapidamente quando deixamos de sobreviver e começamos a repartir, priorizar e largar. Isto também é saúde mental e a estratégia é clara: aliviar a carga mental feminina não passa por fazer tudo sem stress, mas por não fazer tudo sozinha.
Carga mental e gestão do stress
Os estudos científicos são claros ao demonstrar que a carga mental feminina está associada a um mal-estar emocional e à desigualdade de género. O estudo Cognitive household labor: gender disparities and consequences for maternal mental health and wellbeing mostra como essa gestão invisível de tarefas se relaciona com níveis mais elevados de stress, depressão, esgotamento emocional e pior saúde mental nas mulheres, em comparação com a dos seus parceiros.
Além disso, esta carga não se fica apenas pela mente. O corpo também paga a fatura: um nível prolongado de fadiga mental pode causar sintomas físicos, como cansaço constante, insónias, irritabilidade, ansiedade, alterações de humor e do sono, dores de cabeça e musculares ou dificuldade de concentração. Em geral, provoca na mulher uma espécie de “pavio curto”, sensação de tristeza e insatisfação generalizada. Fica para um outro dia falar do impacto na libido.
A carga mental é exclusivamente feminina?
Talvez se pergunte por que razão eles parecem preocupar-se com menos coisas e, muitas vezes, enquanto nos veem a dar conta de tudo. Para compreender isso, é crucial analisar a biologia feminina. Encontramos uma possível explicação médica num reel de Instagram da Dra. Sara Marín Berbell, especialista em saúde feminina que, através da sua conta @uncafecontudoctora, explica as coisas “para que se percebam”:
“Não sei se também lhe acontece, mas eu sinto que carrego emocionalmente com tudo (…) Pois bem, não é você, é a sua biologia feminina. Temos de deixar de nos culpar por coisas que nos acontecem e que têm explicação fisiológica. E é que, de facto, não é que seja demasiado pesada ou intensa. É que o seu cérebro e a forma como regula as emoções são diferentes dos homens (…)
A amígdala é a parte do cérebro que deteta emoções e ameaças; é como o alarme do nosso corpo perante o perigo e, nas mulheres, ativa-se de forma mais intensa. (…) Além disso, as mulheres têm mais memória emocional. Os estrogénios fazem com que o hipocampo armazene melhor experiências, gestos e sensações (…) e que haja maior ligação entre a parte emocional e a parte lógica. Analisamos, compreendemos o que os outros sentem e antecipamos muito melhor. A chave é que, como sentimos mais, preocupamo-nos mais e processamos mais, desenvolvemos maior resiliência, ou seja, maior capacidade de adaptação às emoções. Assim, não é que seja demasiado intensa, não é que exagere e não carrega com tudo porque quer. O que se passa é que o seu cérebro é diferente e nunca ninguém lho tinha explicado.”
Estrogénios? Bingo. Se os estrogénios são, em parte, responsáveis por carregarmos com tudo, não é descabido pensar que a pré-menopausa possa ser uma oportunidade para aliviar mentalmente. Num espírito be happy go lucky, aproveitemos esta fase que nos permite despirmo-nos, ainda que temporariamente, da hiperexigência de recordar tudo, sustentar tudo e antecipar tudo. Assim, é possível alcançar um melhor equilíbrio emocional.
A ciência ajuda-nos a aliviar a mente
A neurociência sustenta que o cérebro da mulher começa a recalibrar-se na pré-menopausa: reduz-se a hiperconexão emocional e aumenta a clareza para priorizar o essencial. A Dra. Louann Brizendine, na sua obra The Upgrade: How the Female Brain Gets Stronger and Better in Midlife and Beyond (2022, Harmony Books), afirma que o cérebro feminino pós-menopáusico “perde a hiperalerta associada aos níveis elevados de estrogénios que favorecem a empatia, a preocupação constante com os outros ou a multitarefa emocional e ganha foco, serenidade e autonomia cognitiva”.
O problema é que, por razões culturais, muitas mulheres confundem responsabilidade com disponibilidade permanente. Dizer sim a tudo não é uma forma inteligente de entender a generosidade e acarreta um desgaste que pode tornar-se muito prejudicial para todos. Se se pretende retomar uma boa gestão do stress, é preciso assumir responsabilidades e reconhecer que uma boa negociação atempada pode ser o caminho para uma vida com menor carga mental. Na prática, trata-se de definir limites claros e praticar a assertividade.
A carga mental no casal (com filhos)
Um capítulo à parte merece a questão das responsabilidades familiares, que inclui o cuidado dos pais, mas sobretudo dos filhos. Aqui há apenas um segredo para não acumular carga mental feminina e chama-se corresponsabilidade. Isto não passa por aceitar um “em que é que ajudo?”, por muito agradável que possa soar. Nem se trata de dividir as tarefas a cinquenta por cento. Trata-se de que ambos os pais se sintam igualmente responsáveis por aquilo que há a fazer.
Eve Rodsky, autora de O Método Fair Play para Divisão de Tarefas Domésticas, livro que até Reese Witherspoon levou para o seu clube de leitura antes da pandemia, insiste numa ideia-chave: delegar é ceder a propriedade mental de uma tarefa. Acordar que fica a cargo de outra pessoa e apagá-la da sua lista mental para sempre. Não só deixar de a executar, mas também deixar de a monitorizar. Que deixe de ser o seu problema porque passou para outra mente, que a planeará, executará e repetirá sempre que necessário.
A autora propõe no seu livro um sistema prático com cartões para repartir a carga mental do lar entre os membros do casal. Para isso, é necessário definir um protocolo, negociar bem e implementar ferramentas concretas que não têm de ser consensuais. É importante que quem assume a tarefa o possa fazer à sua maneira. Andar atrás a fiscalizar não alivia a carga mental feminina (e sabe-o bem).