Solidão escolhida: não é o mesmo estar sozinha e sentir-se sozinha
Importa aqui fazer uma distinção fundamental: quando se fala de solidão, é preciso saber que nem todas as formas de soledade são iguais. Quando não é voluntária, pode magoar, isolar ou invisibilizar quem a vive. A solidão não escolhida pode surgir após uma separação, uma mudança para outro país ou cidade, uma perda ou uma doença.
Nesse caso, ainda que com trabalho possa vir a transformar-se em algo desejado, exige sempre um processo de adaptação. No seu livro La soledad elegida. Herramientas para transformar la soledad en una oportunidad para vivir mejor (Urano Colombia, 2024), Emily Atallah aborda precisamente a passagem de uma solidão que dói para uma solidão que se pode escolher e viver como fonte de crescimento. A autora desafia a narrativa dominante de que estar sozinha é algo negativo e propõe que, com maturidade e autoconhecimento, se converta essa experiência numa oportunidade de desenvolvimento pessoal e plenitude interior.
Para começar, pode ser um caminho extraordinário de autodescoberta e de atribuição de um novo sentido à vida: “A solidão não é simplesmente um estado em que se está, mas uma escolha poderosa quando é compreendida e abordada de forma consciente”, explica, convidando a leitora a transformar as crenças que possui sobre a solidão, a questionar as narrativas sociais que impõem a necessidade de estar sempre conectada e a aprender ferramentas práticas que a própria autora propõe.
Bem compreendida, a soledade pode ser uma notável fonte de bem-estar. E neste ponto importa introduzir uma nuance essencial: viver sozinha não é viver isolada. De facto, é precisamente o contrário. Já aqui referimos várias vezes que a Organização Mundial da Saúde insiste que as relações sociais são um dos pilares da saúde – e tem razão. Por isso, a solidão escolhida não pode transformar-se em desaparecer do mapa, cancelar amizades ou afastar-se de tudo. Pelo contrário, pode ser uma oportunidade para cultivar redes sociais – fora da Internet, naturalmente – ricas e diversificadas, continuar a construir amizades sólidas e fortalecer laços familiares, desde que se trate de relações saudáveis e enriquecedoras. Escolher melhor os vínculos, não os forçar, mas cuidar deles. Tudo isto mantendo a preciosa independência. Não soa nada mal, pois não?
Quatro estratégias para viver bem a solidão escolhida
Como transformar a solidão escolhida numa fonte de bem-estar e não num refúgio triste? Eis algumas orientações.
1. Cultivar a vida interior
Aprenda a escutar-se: leia, escreva, reflita, caminhe sem auscultadores, permita aborrecer-se um pouco. Num mundo hiperconectado, o silêncio é um luxo, e só através dele poderá transformar a solidão num plano claro do que realmente deseja, do que lhe importa e a move.
2. Transformar os hobbies em território próprio
O que gosta de fazer? Pintar, correr, fazer cerâmica, dançar, colecionar vinis, resgatar cães… Os interesses pessoais são uma parte fundamental da identidade. Muitas mulheres, quando estão numa relação, colocam as suas paixões em segundo plano. Este é o momento de as recuperar, sem necessidade de chegar a acordo com ninguém.
3. Participar na comunidade
Dar-se aos outros é uma das formas mais profundas de autocuidado. Inscreva-se num clube de leitura, participe em associações locais, faça voluntariado, frequente um centro desportivo. Viver sozinha não é viver enclausurada. Pelo contrário, saia e escolha a sua tribo.
4. Reescrever a narrativa social
Este é, talvez, o passo mais importante: deixe de se justificar. Quando lhe perguntarem “E então, para quando?”, responda: estou exatamente onde quero estar. Não se trata de uma fase, nem de uma sala de espera. É a solidão escolhida – e é aquilo que a faz feliz. Recorde: não está a renunciar. Amor-próprio, amizade, projetos, comunidade, liberdade. Isto, sim, é um final feliz.